Carro a Combustão ou Elétrico: Uma Análise Comparativa dos Custos, Benefícios e Desafios para o Consumidor Brasileiro no Cenário Atual de Transição Energética
Kauã Paiva - Assessor da Sala de Ações - UFPB
09/02/2026 - 17h:10
O Projeto Sala de Ações, por meio de seu escritório financeiro de estudos, desenvolve, em um cenário de transição energética e crescimento da mobilidade sustentável, uma análise comparativa entre veículos a combustão e elétricos no Brasil, com foco na viabilidade econômica para o consumidor. A pesquisa busca responder se já vale a pena, do ponto de vista financeiro, substituir um carro a combustão por um modelo elétrico. A análise é conduzida a partir da realidade brasileira, considerando aspectos como tributação, preço da energia elétrica, custo dos combustíveis, desvalorização dos veículos e perfil de uso do consumidor médio.
O cenário brasileiro é marcado por disputas no setor automotivo. Em julho de 2025, as principais montadoras do país (Fiat, Volkswagen, Chevrolet e Toyota) emitiram uma nota conjunta ao Governo Federal criticando a BYD, principal montadora de veículos elétricos do Brasil, por sua estratégia de importação de veículos parcialmente desmontados, nos regimes SKD[1] e CKD[2]. Esses veículos, uma vez montados no país, passam a ser classificados como nacionais e ficam isentos da taxação aplicada aos elétricos importados. Em resposta, a BYD acusou as montadoras tradicionais de produzirem veículos defasados e de baixa qualidade, ampliando o debate sobre competitividade, nacionalização e incentivos fiscais. Como consequência, o Governo endureceu a cobrança de impostos e ampliou temporariamente as cotas com isenção para kits montados, gerando incertezas no setor e exigindo maior atenção do consumidor quanto ao impacto direto dessas medidas no preço final dos veículos elétricos no mercado nacional.
Para análise, foram selecionados dois modelos líderes de vendas no Brasil em 2024, representando, respectivamente, as categorias a combustão e elétrica: o Volkswagen Polo Highline e o BYD Dolphin Mini. O estudo considerou um ciclo médio de uso de dois anos e 20.000 km rodados, refletindo o comportamento padrão do consumidor brasileiro, conforme dados da Anfavea. A análise abrangeu os principais componentes de custo ao longo desse período, incluindo preço de aquisição, IPVA, seguro, consumo energético, manutenção, instalação de carregador doméstico (no caso do veículo elétrico), desvalorização e custo proporcional da bateria. A desvalorização foi calculada com base na variação do valor do veículo na Tabela Fipe, principal índice de referência para negociações, seguros e cálculo do IPVA.
O Volkswagen Polo Highline apresentava, em agosto de 2025, preço de R$ 131.000,00. Seu IPVA, considerando uma alíquota padrão de 4% ao ano, totalizou R$ 10.100,00 ao longo de dois anos. O consumo urbano com gasolina (12,2 km/l) gerou um custo de R$ 9.996,00 para 20.000 km rodados, enquanto, com etanol (8,7 km/l), o custo foi de R$ 10.575,00. As revisões programadas somaram R$ 3.978,00, e o seguro médio anual foi estimado em R$ 4.000,00. A desvalorização média após dois anos foi calculada em R$ 29.136,00, equivalente a 22,13% do valor inicial, resultando em um valor líquido de revenda de R$ 77.790,00. O custo total, excluindo a depreciação, foi de R$ 24.074,00.
O BYD Dolphin Mini, por sua vez, custava R$ 119.000,00 em sua versão única. Aplicando a mesma alíquota de 4% para o IPVA, o valor total no período de dois anos foi de R$ 9.520,00. O consumo médio urbano (12,2 km/kWh) resultou em um custo de R$ 1.554,00 em energia elétrica, considerando o valor de R$ 0,59/kWh em João Pessoa (PB). O seguro médio anual foi estimado em R$ 3.000,00, e as revisões totalizaram R$ 1.370,00. Adicionou-se ainda um custo de R$ 2.000,00 referente à instalação de um carregador do tipo wallbox. A bateria do Dolphin Mini, com garantia de oito anos, teve um custo proporcional estimado em R$ 5.000,00 para o período analisado. A desvalorização média após dois anos foi estimada em R$ 20.000,00, equivalente a 15,57% do valor inicial, resultando em um valor de revenda de R$ 76.556,00. O custo total, desconsiderando a desvalorização, foi de R$ 14.244,00.
Na comparação entre os dois modelos, o Dolphin Mini demonstrou maior economia operacional, principalmente nos custos com consumo energético, manutenção e seguro. Ainda assim, ao final de dois anos, a diferença no valor líquido entre os veículos foi pequena: o Polo apresentou valor final estimado de R$ 77.790,00, enquanto o Dolphin Mini alcançou R$ 76.556,00, uma diferença de apenas R$ 1.234,00 em favor do modelo a combustão. Essa pequena vantagem, no entanto, deve ser contextualizada. O veículo elétrico oferece maior garantia, menores emissões e um custo de uso significativamente inferior, mas é impactado por políticas tributárias instáveis, como a recente decisão do Governo Federal de antecipar a cobrança do imposto de 35% sobre veículos montados em regime CKD, afetando diretamente modelos como os da BYD.
O estudo conclui que, no cenário observado em agosto de 2025, os veículos a combustão ainda apresentam uma leve vantagem financeira em relação aos elétricos, embora estes últimos possuam custos operacionais mais baixos. Entretanto, a decisão final vai além da simples comparação de custos, exigindo a análise de variáveis específicas dos veículos elétricos, como a infraestrutura local de recarga, o perfil de deslocamento do motorista, as flutuações nos preços dos combustíveis e as políticas públicas vigentes. Dessa forma, torna-se essencial que o consumidor atualize constantemente suas análises com base nas condições mais recentes do mercado, reforçando a importância da educação financeira e do planejamento cuidadoso antes da troca de veículo em um contexto de transição energética. Vale destacar que, em cenários de alta quilometragem, os resultados podem se alterar significativamente, uma vez que o menor custo operacional dos veículos elétricos tende a se tornar mais vantajoso. A Sala de Ações já dispõe de um estudo complementar que aborda esse tema, considerando o uso intensivo típico de motoristas de aplicativo, como no caso do Uber.
[1] O Regime Semi Knocked-Down (SKD) é uma estratégia de produção onde veículos são exportados parcialmente montados, exigindo apenas a finalização na fabrica do país de destino.
[2] O Regime Completely Knocked Down (CKD) é um sistema de produção onde um produto é enviado em peças totalmente desmontadas para outro país para ser montado localmente.
Prof. Dr. Sinézio Fernandes Maia
Coordenador da Sala de Ações - UFPB

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