domingo, 25 de janeiro de 2026

 


Diagnóstico Macroeconômico do Brasil para 2026: Evidências do Modelo IS e da Sustentabilidade da Dívida

Prof. Sinézio Fernandes Maia

25/01/2026 – 11h20

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O diagnóstico traçado por Samuel Pessoa e Mansueto Almeida converge para a avaliação de que o principal desafio da economia brasileira no horizonte 2026-2027 não é de natureza conjuntural, mas estrutural, com epicentro no desequilíbrio fiscal e seus efeitos persistentes sobre o nível dos juros reais. Apesar de crescimento moderado e desemprego historicamente baixo, a economia brasileira opera próxima ao limite de sua capacidade produtiva, marcada por baixa produtividade e elevada rigidez do gasto público. O resultado é um padrão de crescimento sustentado sobretudo pela expansão do emprego, e não por ganhos de eficiência, o que exige taxas de juros elevadas para conter pressões inflacionárias recorrentes. O atual arcabouço fiscal, embora conceitualmente bem desenhado, revela-se incompatível com mecanismos de indexação automática – como a valorização real do salário mínimo e as vinculações constitucionais de gastos com saúde e educação -, dificultando a estabilização da dívida pública. Para ambos os analistas, 2026 tende a ser um ano de transição e volatilidade, enquanto 2027 se apresenta como decisivo: sem um plano crível de controle do crescimento da despesa obrigatória, o país corre o risco de conviver com juros estruturalmente altos e crescimento limitado, mesmo em um cenário internacional que, no curto prazo, ainda favorece emergentes. A leitura conjunta das análises sugere que o Brasil não sofre de falhas de modelo, mas de incoerência entre modelos. Uma política fiscal expansionista em um contexto de oferta rígida, combinada com uma política monetária reativa, produz exatamente o resultado observado: juros altos, crescimento limitado e fragilidade fiscal persistente. 

Sob a ótica de Samuel Pessoa, o problema central reside na restrição estrutural de oferta e na baixa produtividade. O juro elevado surge como consequência inevitável de se tentar sustentar crescimento e redistribuição em uma economia que já opera próxima do pleno emprego. Para analisar esse diagnóstico, os modelos mais adequados são o modelo IS com restrição de oferta e a Curva de Phillips estrutural, com a Regra de Taylor aparecendo como resposta coerente da política monetária. A dívida pública e a paridade descoberta de juros desempenham papel secundário, embora relevante, como canais auxiliares de transmissão. Já a preocupação central de Mansueto Almeida é distinta. Para ele, o Brasil enfrenta uma armadilha fiscal-institucional que impede a estabilização da dívida e mantém juros elevados. Nessa leitura, o Banco Central reage a um ambiente fiscal inconsistente, mas não o cria. O excesso de demanda não constitui o núcleo do problema; por isso, o modelo IS é o pano de fundo central de sua análise. O foco desloca-se para a sustentabilidade da dívida, o prêmio de risco e a credibilidade fiscal, sendo a Regra de Taylor e a Paridade Descoberta de Juros meros canais de transmissão desse desequilíbrio fiscal subjacente. 

A análise estatística inicial, com dados de janeiro de 2003 a dezembro de 2025, permite uma leitura preliminar – ainda sem estimações estruturais – a partir da estatística descritiva do bloco do modelo IS (atividade, juros reais, inflação, câmbio e resultado fiscal). 

 

 

 

 

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O crescimento médio do PIB real foi de 3,75% ao ano, com variação entre -6,72% e 10,36%. A Selic real apresentou média de 5,16%, com mínimo de -4,44% e máximo de 12,95%,  enquanto o IPCA registrou média de 6,08%, oscilando entre 1,88% e 17,24%. A taxa de câmbio apresentou média de 3,29, com mínimo de 1,56 e máximo de 6,19. O resultado primário variou entre déficits de R$ -702,95 bilhões e superávits de R$ 230,55 bilhões. Esses números revelam um padrão compatível com uma economia operando próxima ao limite, em que a acelerações da atividade são acompanhadas por elevações de juros. O crescimento do PIB real e a Selic real exibem correlação positiva em torno de 0,35. Para caracterizar de forma mais precisa a presença de excesso de demanda, a inclusão do hiato do produto é fundamental. 

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De fato, períodos de hiato positivo – economia operando acima do potencial – são sistematicamente acompanhados por elevação da taxa Selic nominal, refletindo uma reação monetária persistente. Trata-se de uma evidência clássica do modelo IS em um ambiente de restrição estrutural de oferta, no qual o ajuste ocorre predominantemente via juros, e não por expansão sustentada do produto. 

Ao avançar para o diagnóstico fiscal proposto por Mansueto Almeida, os dados estatísticos corroboram amplamente sua argumentação. A dívida pública apresenta média de R$ 6,83 trilhões, com mínimo de R$ 3,86 trilhões e máximo de R$ 11,68 trilhões, evidenciando trajetória claramente ascendente e elevada dispersão ao longo do tempo. O serviço da dívida, medido pelos juros pagos (negativos pela convenção contábil), apresenta média de R$ -482,9 bilhões, com baixa variabilidade relativa, indicando que o custo financeiro do Estado é estrutural, e não episódico. 

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O resultado primário mostra-se particularmente revelador: média próxima de zero (R$ 26,2 bilhões), combinada com altíssima volatilidade e episódios recorrentes de déficits profundos, sobretudo após 2014 e durante a pandemia. Essa instabilidade evidencia a dificuldade crônica de gerar superávits primários sustentados, condição necessária para estabilizar a divida em um ambiente de juros reais elevados. A expansão monetária observada no período, por sua vez, não foi capaz de conter o avanço da dívida, reforçando o caráter fiscal – e não monetário – do problema. Assim, a análise estatística confirma o diagnóstico de Mansueto Almeida ao evidenciar uma dinâmica marcada pela combinação de juros elevados, crescimento modesto e esforço fiscal instável. Essa configuração é compatível com a violação recorrente da condição clássica de sustentabilidade da dívida e sustenta a avaliação de que a fragilidade fiscal brasileira é estrutural e institucional, e não resultado de choques conjunturais isolados. 

A análise conjunta dos argumentos teóricos e das evidências empíricas sugere que os desafios macroeconômicos brasileiro são de natureza estrutural e exigem coerência entre os instrumentos de política econômica. De um lado, o diagnóstico de excesso de demanda em um ambiente de oferta rígida ajuda a explicar a persistência de juros elevados, como destacado por Samuel Pessoa. De outro, a fragilidade fiscal estrutural, enfatizada por Mansueto Almeida, limita a eficácia da política monetária e pressiona a dinâmica da dívida pública. Os dados recentes corroboram ambos os diagnósticos, ao revelar crescimento moderado, juros elevados e incapacidade de geração consistente de superávits primários. Nesse contexto, as expectativas para 2026-2027 dependerão crucialmente da credibilidade de um ajuste fiscal capaz de reduzir o prêmio de risco e reancorar a trajetória da dívida. Sem esse realinhamento, o país tende a permanecer preso a um regime de crescimento baixo, juros altos e fragilidade macroeconômica persistente. 

 

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